CARTA ABERTA À GEOGRAFIA BRASILEIRA: É PRECISO TER CORAGEM...

10/11/2016 00:47

Nos últimos anos temos assistido na América Latina, de forma geral, um duplo movimento: de um lado, em que pese as contradições inerentes às estratégias acionadas pelos partidos de esquerda em seus governos, uma crescente campanha de rechaço e perseguição de todo e qualquer pensamento libertário ou humanista e luta por igualdade e justiça social; por outro lado, retrocesso dos direitos sociais e o avanço implacável de grupos histórica e geneticamente vinculados às elites aristocráticas (transfigurada numa elite burocrática) nacionais – agora associados aos setores mais radicalmente conservadores da sociedade.

Numa escala ampliada, nota-se (já comprovado) o esforço de retomada das iniciativas norte-americanas para a consolidação definitiva de um grande campo de dominação regional, como forma de fortalecimento da hegemonia global – posta à prova mais explicitamente ao longo dos desdobramentos da crise financeira de 2008, frente ao fortalecimento das alianças entre os países periféricos, como no caso dos BRICs. Retoma-se a “velha” receita de desestabilização de governos, em vistas ao enfraquecimento dos blocos econômicos regionais e mundiais de poder, agregada à estratégias de monopólio do enorme potencial dos recursos energéticos no continente americano, como no caso do pré-sal brasileiro.

Nota-se ainda, que o esforço de retomada do poder pelos “novos velhos” atores políticos, tem encampado práticas neoliberais, sem, contudo, necessariamente uma filiação explicita. É alarmante, como os preceitos neoliberais (que se travestem de “novos”) têm sido combinados contraditoriamente com intervenções via legislativo de moralização, controle, criminalização e doutrinação dos setores sociais – o que implica na ampliação do controle estatal sobre as instituições e o cotidiano da sociedade. São três, portanto, os financiadores da retomada da aristocracia nacional: a pressão política externa, orientada para a desestabilização do governo até então empossado, em vistas à imposição de um governo filiado aos projetos norte-americanos; o capital internacional, em busca da criação e garantia de mercado e lucro; e o setor conservador radical, na luta pela consolidação de um projeto eugênico, dogmático e moralista, racista, sexista, misógino e homofóbico de sociedade e democracia.

Acompanhado de violência, golpes jurídicos-legislativos-midiáticos, têm se tornado recorrentes, desmantelando direitos sociais básicos (PEC 241, Reforma Política, da Educação, da Saúde etc.). Em contraposição, o cenário de crise econômica e política têm custado caro à maior parte da população brasileira (muitos beneficiários dos programas e direitos sociais conquistados). Como na década de 90, a “cultura da crise” tem servido para legitimar as mais escabrosas ações institucionais, marcadas por inconstitucionalidade, falta de ética e descompromissadas com uma justiça social mais ampla: sofrem as escolas, universidades, hospitais, aposentados... para a garantia e ampliação dos privilégios da aristocracia nacional. A ofensiva “neoliberal” traz como uma de suas características o retrocesso dos direitos conquistados pelos grupos sociais subalternizados.

Em vistas à este cenário, e fazendo jus à história de luta da Geografia brasileira, em memória à Orlando Valverde e demais geógrafxs nos movimentos de luta pela Amazônia; em memória aos estudantes que “ocuparam” o Encontro Nacional de Geógrafos de 1978, mudando a história da Geografia brasileira; em memória àqueles que atuam nas áreas de maior instabilidade social na luta pela garantia de direitos e justiça ao povo subalternizado; em memória ao professor William Rosa e a atuação junto aos movimentos sociais e ocupações dos sem-terra e sem teto em todo Brasil; a Associação dos Geógrafos Brasileiros – Seção Local Niterói, declara apoio e se soma ao movimento #OCUPAIGEO, da Universidade Federal Fluminense, e conclama aos estudantes e profissionais das demais universidades do Estado do Rio de Janeiro à articularem com os demais cursos e ocuparem seus respectivos institutos, como forma de protesto e pressão para o embargo das medidas do poder público adotadas e em tramitação no Congresso e Senado que retroagem os direitos sociais conquistados até então.

A história não se faz. A Geografia também está por fazer-se... É preciso faze-la. Pelo nosso direito, é nosso dever: é preciso coragem.